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21/03/13 - Roteirista: 5 anos num quarto escuro por meia página da Rolling Stones

Roteirista: 5 anos num quarto escuro por meia página da Rolling Stones

Ao contrário do que muitos prêmios valorizam hoje, ainda acredito que a arte do roteiro é muito mais do que arcos dramáticos e golpes teatrais.

Fazendo jus à nova tradição cinematográfica brasileira, em que o improviso no SET e a preparação de elenco são cada dia mais frequentes, observamos que a criação de personagens verossímeis com boas crises paradoxais encontra um espaço cada vez mais importante nos filmes e séries nacionais.

Mas para criar personagens verossímeis em crise e imergir em suas reais emoções sem soar clichê, você tem que mergulhar nas suas próprias questões mais íntimas.

Muitas vezes dói explorar certas facetas da sua personalidade. Ou assumir determinada perspectiva da vida que você nega para ser politicamente correto e socialmente aceito.

Mas a verdade é que todos nós sentimos e pensamos centenas de coisas que nos qualificariam como desajustados, preconceituosos, pervertidos, imorais, e egoístas.

Ora, para criar um cinema mais emocionante e real, o roteirista precisa assumir sua hipocrisia, rever a sua forma patética, às vezes egoísta, prepotente e arrogante de viver.

Precisa repensar valores, relações e atitudes, e sempre esse tipo de autoanálise sem um psicólogo paternalista é muito doloroso.

Poderíamos chamar de método "Fátima Toledo para roteiristas masoquistas". É descer dos confortáveis degraus sociais e políticos que você passou uma vida toda procurando ascender e se rebaixar aos níveis boçais, imediatistas, materialistas, carnais, chulos e sexistas.

É entrar na pele dessas personagens criando seus paradoxos e atitudes. Ninguém falou que iria ser fácil. Bem vindo ao doloroso processo de autoconhecimento chamado "roteirizar", em que cinco anos num quarto escuro, revivendo traumas que você queria esquecer, com muita sorte, se traduzem em uma entrevista de meia página na Rolling Stones ou na pior das hipóteses, numa coluna de obituários de uma cidade pequena. O problema é que até hoje você só ouviu falar daqueles que saíram na Rolling Stones.

Por Celso Vilalba


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